Dia 3 de 64

Dia 3

A serpente e o fruto proibido

Gênesis 3:1-24

  1. A conversa com a serpente

    A conversa com a serpente

    A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo. Um dia ela chegou perto da mulher e perguntou: “É verdade que Deus disse que vocês não podem comer de nenhuma árvore do jardim?” A mulher respondeu: “Podemos comer de todas. Só da árvore do meio do jardim Deus disse: não comam, nem toquem nela, senão vocês morrerão.”

    Gênesis 3:1-3
  2. O fruto proibido

    O fruto proibido

    A serpente disse: “Vocês não vão morrer, não! Deus sabe que, no dia em que comerem, seus olhos se abrirão e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal.” A mulher olhou: o fruto era bonito, parecia gostoso e prometia sabedoria. Então ela pegou, comeu e deu também ao marido, que estava com ela. E ele comeu.

    Gênesis 3:4-6
  3. Olhos abertos

    Olhos abertos

    Na mesma hora, os olhos dos dois se abriram... e eles perceberam que estavam nus. Então costuraram folhas de figueira e fizeram roupas para se cobrir. Pela primeira vez, sentiram uma coisa que nunca tinham sentido antes: vergonha. A luz do coração deles começou a ficar mais fraquinha.

    Gênesis 3:7
  4. "Onde está você?"

    "Onde está você?"

    No fim da tarde, quando soprava a brisa, eles ouviram Deus passeando pelo jardim, e se esconderam no meio das árvores. Deus chamou: “Onde está você?” Adão respondeu: “Ouvi tua voz e tive medo, porque estava nu, e me escondi.” E logo veio a desculpa: “Foi a mulher que me deu!” E a mulher: “Foi a serpente que me enganou!”

    Gênesis 3:8-13
  5. As consequências e o cuidado

    As consequências e o cuidado

    Deus disse à serpente que ela rastejaria pelo chão, e que um dia um descendente da mulher esmagaria a sua cabeça. Para a mulher e para o homem, a vida ficaria mais difícil: dor, suor e trabalho duro. E um dia voltariam ao pó de onde vieram. Mas, mesmo assim, Deus fez para eles roupas de pele e os vestiu com carinho.

    Gênesis 3:14-21
  6. A saída do jardim

    A saída do jardim

    Então Deus tirou o homem e a mulher do Jardim do Éden, para cultivarem a terra lá fora. No lado oriental do jardim, colocou querubins e uma espada de fogo que girava para todos os lados, guardando o caminho da Árvore da Vida. Adão e Eva saíram de mãos dadas. O paraíso ficou para trás... mas o caminho de volta continua guardado, esperando.

    Gênesis 3:22-24
1 de 6

A reflexão

“Então os olhos de ambos se abriram, e perceberam que estavam nus. [...] E o Senhor Deus chamou o homem e lhe perguntou: Onde estás?”

Gn 3:7-9

O fato

Uma serpente conversa com a mulher e coloca uma dúvida no coração dela. A mulher come do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e dá ao homem, que também come. Os olhos dos dois se abrem, eles se descobrem nus, se cobrem com folhas e se escondem de Deus. Deus os procura, ouve as desculpas, anuncia as consequências, faz roupas de pele para eles e os tira do jardim. Querubins e uma espada de fogo passam a guardar o caminho da Árvore da Vida.

Repare que o texto nunca diz que o fruto era uma maçã (isso veio depois, de um trocadilho latino: malum quer dizer tanto “mal” quanto “maçã”). E a serpente também não é chamada de diabo aqui. O fato é a história como está escrita. A verdade é o que ela mostra acontecendo, todos os dias, dentro de cada um de nós.

A verdade por trás

  1. A serpente

    É a voz que rasteja rente ao chão, perto do instinto. Ela não mente de cara: começa com uma pergunta (“É verdade que Deus disse...?”) e exagera a regra para fazer Deus parecer mesquinho. É assim que a tentação funciona até hoje: primeiro a dúvida, depois a distorção, por fim a promessa. Curiosamente, em muitas tradições a serpente também é símbolo de sabedoria e cura (o bastão de Asclépio, a kundalini do yoga, e o próprio Moisés vai erguer uma serpente de bronze no deserto). A mesma energia que nos derruba é a que, bem direcionada, nos eleva.

  2. A primeira dúvida

    Repare na sutileza: Eva acrescenta “nem toquem nela”, coisa que Deus não tinha dito. Quando a gente começa a negociar com a tentação, a regra fica maior do que é, e o Bem parece um carcereiro. O ego sempre transforma o limite em ameaça.

  3. “Sereis como Deus”

    Esta é a promessa central, e é a raiz do que os místicos chamam de ego. Não é querer crescer; é querer ser o centro, ser a medida de tudo, decidir sozinho o que é bom e o que é mau. A ironia é que eles já eram à imagem de Deus (Dia 1). A serpente vende o que eles já tinham, com uma condição: largar a confiança. O ego é isso: tentar conquistar à força aquilo que só se recebe de graça.

  4. Os olhos se abriram

    Eles queriam ver tudo, e a primeira coisa que viram foi... a si mesmos. Nus. Expostos. Nasce a autoconsciência que se olha de fora, que se compara, que se julga. É o “espelho” que nunca mais desliga. Os sábios do Oriente falariam do nascimento da dualidade: eu aqui, o mundo lá; eu certo, você errado. A mente que divide (a árvore de que falamos ontem) agora ocupa o centro.

  5. As folhas de figueira

    A primeira reação à vergonha não é a verdade, é a máscara. Jung chamou isso de persona: a roupa social que a gente costura para não ser visto por inteiro. Todo mundo tem a sua folha de figueira: o sucesso, o humor, a aparência, a ocupação constante. O problema não é ter persona; é acreditar que você é a folha.

  6. Esconder-se entre as árvores

    Depois da máscara, vem a fuga. E aqui está a frase mais bonita do capítulo: Deus não chega acusando, chega perguntando: “Onde estás?” Deus sabe onde Adão está. A pergunta é para Adão descobrir. Martin Buber dizia que essa é a pergunta que Deus faz a cada ser humano em cada momento da vida: “Onde você está no seu mundo?” Não geograficamente, mas existencialmente.

  7. “Foi ela... foi a serpente”

    O homem culpa a mulher (e, no fundo, culpa Deus: “a mulher que TU me deste”). A mulher culpa a serpente. Ninguém diz “fui eu”. O ego ferido sempre projeta. Na psicologia, chamamos de projeção: jogar no outro aquilo que não queremos ver em nós. A cura começa exatamente quando alguém tem coragem de dizer: “fui eu”.

  8. As consequências

    Dor, suor, trabalho duro, voltar ao pó. Não precisa ler como castigo arbitrário: é a descrição de como a vida fica quando a gente sai do centro. Tudo vira esforço, tudo vira luta, porque agora o eu separado precisa se sustentar sozinho. E mesmo nessas palavras duras há uma promessa escondida: um descendente da mulher vai esmagar a cabeça da serpente. Os antigos chamavam esse versículo de Protoevangelho, o primeiro anúncio de redenção.

  9. As roupas de pele

    Antes de mandar embora, Deus veste. Troca as folhas que murcham por roupas que protegem. É o primeiro gesto de graça depois da queda. Alguns cabalistas leram aqui que a “pele” é o corpo denso, a condição humana que vestimos neste mundo. Seja como for, a mensagem é clara: mesmo quando erramos, não somos abandonados.

  10. Os querubins e a espada de fogo

    O caminho da Árvore da Vida não foi destruído: foi guardado. Ou seja, existe caminho de volta, mas não se volta com o ego intacto. A espada de fogo é o que queima o falso eu. Os místicos cristãos falavam da “noite escura” (São João da Cruz); os sufis falam de fana, a morte do ego antes de morrer. O Éden não está perdido; está do outro lado do fogo.

Pra vida real

  • Perceba a “serpente” da sua cabeça: aquela voz que começa com “será que...” e termina convencendo você a largar o que sabe que é bom.
  • Quando sentir que precisa provar algo, se perguntar: estou tentando conquistar à força o que já tenho?
  • Qual é a sua folha de figueira? O que você usa para não ser visto por inteiro?
  • Observe quando você se esconde: no celular, no trabalho, na correria, no silêncio frio.
  • Na próxima vez que algo der errado, antes de procurar culpados, tente dizer: “qual foi a minha parte nisso?”
  • Lembre: errar não te expulsa do amor. A primeira coisa que Deus fez depois da queda foi procurar e vestir.

Reflexão do dia

Se hoje Deus te perguntasse “Onde você está?”, qual seria a sua resposta honesta, sem folha de figueira e sem culpar ninguém?

Prática

Hoje à noite, sente em silêncio por cinco minutos. Respire fundo três vezes e faça a si mesmo a pergunta: “Onde estou?” Deixe vir a resposta verdadeira: cansado, com medo, feliz, perdido, em paz. Depois escreva uma frase começando com “Fui eu que...”, assumindo uma escolha do dia, sem se acusar e sem se defender. Termine agradecendo: mesmo assim, você continua sendo procurado e cuidado.

Lembrando: esta é uma interpretação, não A interpretação. Deixe o texto falar com você.

AmanhãCaim e Abel — a inveja, a raiva e a pergunta “Sou eu o guardador do meu irmão?”